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A IA vai acabar com a Educação?

Uma reflexão sobre como a Inteligência Artificial pode apoiar o trabalho docente sem substituir a criatividade, o julgamento e a responsabilidade humana.

  • Inteligência Artificial
  • Educação
  • Trabalho docente
Professor diante de pilhas de trabalho e um laptop, refletindo sobre o uso de inteligência artificial na educação.

A educação nunca foi estática.

A forma como ensinamos e aprendemos mudou diversas vezes ao longo da história, quase sempre acompanhando transformações sociais e tecnológicas. No século XIX, o ensino era fortemente baseado na exposição oral do professor, na memorização e em poucos recursos didáticos. Livros eram menos acessíveis, a informação era escassa e o professor ocupava uma posição central como fonte de conhecimento.

No século XX, isso começou a mudar rapidamente. Livros se tornaram mais acessíveis, surgiram novos recursos audiovisuais, projetores, televisão educativa e, posteriormente, os computadores chegaram às escolas e universidades.

Depois veio a Internet. De repente, o conhecimento que antes estava concentrado nas bibliotecas passou a estar disponível a poucos cliques de distância. Enciclopédias deram lugar aos mecanismos de busca. Artigos científicos passaram a circular digitalmente. Vídeos, fóruns, ambientes virtuais de aprendizagem e plataformas educacionais modificaram novamente nossa relação com o conhecimento.

Tenho certeza de que, em cada uma dessas transformações, houve resistência. Provavelmente alguém considerou que determinados recursos tornariam os alunos preguiçosos. Que o computador prejudicaria a aprendizagem. Que pesquisar na Internet não era estudar de verdade. Que assistir a uma aula gravada jamais poderia contribuir para a formação de alguém. Hoje, entretanto, utilizamos muitas dessas tecnologias naturalmente.

Então chegamos à Inteligência Artificial. E a história parece se repetir.

Por que estamos demonizando a IA?

Tenho acompanhado com preocupação um discurso cada vez mais comum no ambiente educacional: o de que a Inteligência Artificial seria uma ameaça ao ensino. É evidente que existem problemas. Um estudante pode utilizar uma IA para responder uma atividade sem sequer compreender o que está entregando. Pode terceirizar seu raciocínio. Pode produzir trabalhos que não representam aquilo que aprendeu. Pode receber informações incorretas e aceitá-las sem qualquer análise crítica.

Mas isso significa que devemos combater a tecnologia? Não acredito.

Como qualquer ferramenta, a IA exige consciência sobre como, quando e para que deve ser utilizada. O problema não está simplesmente em usar IA. Está em abrir mão da autonomia intelectual e utilizá-la sem reflexão, validação ou responsabilidade. Por isso, acredito muito mais em ensinar nossos alunos a utilizar Inteligência Artificial de maneira humana, ética e crítica do que simplesmente tentar proibi-la. E penso que o mesmo princípio deveria valer para nós, professores.

Existe outro lado dessa discussão: o professor

Quando discutimos IA na educação, normalmente perguntamos: “O aluno pode usar?”.

Talvez estejamos fazendo uma pergunta pequena demais.

Também deveríamos perguntar: “Como a IA pode melhorar o trabalho do professor?”

Essa questão se torna ainda mais importante quando olhamos para a realidade da educação brasileira. Professores são profissionais extremamente desvalorizados. Além das aulas, existe uma quantidade enorme de trabalho que não aparece quando entramos em uma sala: planejamento, preparação de materiais, elaboração e correção de atividades, preenchimento de sistemas, lançamento de notas, produção de relatórios, reuniões, atendimento aos alunos e inúmeras outras demandas administrativas. E boa parte desse trabalho vai para casa.

Existe ainda outra dimensão. Cada vez mais, professores são chamados a lidar com problemas que ultrapassam sua formação e sua função profissional. Problemas familiares, dificuldades financeiras, conflitos pessoais, sofrimento emocional e diferentes situações de vulnerabilidade chegam diariamente às instituições de ensino.

Isso não significa que devemos abandonar a empatia. Muito pelo contrário. Precisamos enxergar o estudante como ser humano. Precisamos ouvir, acolher e encaminhar quando necessário. A humanização é parte importante da educação. Mas existe uma diferença entre ser humano e assumir responsabilidades para as quais o professor não foi formado.

Professor ensina.

Ele não deveria precisar ser, ao mesmo tempo, professor, psicólogo, assistente social e responsável por solucionar os problemas pessoais e financeiros de seus alunos. A escola (apoiada pelo Estado) precisa oferecer mecanismos e profissionais especializados para isso. Enquanto exigimos que o professor resolva tudo, algo inevitavelmente fica para trás. Muitas vezes, é o próprio professor.

E se a IA pudesse devolver tempo ao professor?

É justamente aqui que vejo uma das maiores oportunidades da Inteligência Artificial na educação. Existe uma quantidade enorme de tarefas que fazem parte do trabalho docente, mas que possuem componentes repetitivos, operacionais ou burocráticos:

  • Preparar a estrutura inicial de um plano de aula;
  • Gerar uma primeira versão de uma atividade;
  • Criar questões a partir de um conteúdo já definido;
  • Organizar tópicos para uma apresentação;
  • Adaptar um material para diferentes níveis de conhecimento;
  • Criar exemplos;
  • Revisar textos;
  • Organizar informações;
  • Preparar versões iniciais de documentos.

Por que um professor deveria gastar horas executando manualmente tarefas que uma máquina pode realizar em segundos?

Isso não significa entregar a responsabilidade para a IA. A diferença é fundamental.

A IA pode gerar. O professor avalia. A IA pode sugerir. O professor decide.

A IA pode produzir uma primeira versão. O professor revisa, modifica, contextualiza e assume a responsabilidade pelo resultado. É assim que procuro enxergar essa tecnologia no meu próprio trabalho como professor e pesquisador: não como substituta do professor, mas como uma ferramenta de apoio ao seu trabalho.

Professor não deveria ser uma máquina de produzir materiais

Existe uma contradição interessante nessa discussão. Temos medo de que as máquinas substituam os professores, mas há muito tempo tratamos professores como máquinas:

  • Máquinas de preparar slides;
  • Máquinas de corrigir atividades;
  • Máquinas de preencher sistemas;
  • Máquinas de produzir documentos;
  • Máquinas de responder mensagens;
  • Máquinas de cumprir burocracias.

Depois de tudo isso, esperamos que esse mesmo profissional entre em sala descansado, motivado, atualizado, criativo e preparado para oferecer uma excelente experiência de aprendizagem.

Talvez estejamos olhando para o problema pelo lado errado. A Inteligência Artificial não precisa retirar a humanidade do ensino. Ela pode justamente ajudar a devolvê-la. Se uma ferramenta me permite reduzir duas horas de uma tarefa burocrática para vinte minutos, os outros cem minutos não precisam ser utilizados para produzir ainda mais.

Eles podem ser utilizados para preparar melhor uma aula:

  • Para estudar;
  • Para pesquisar;
  • Para conversar com os alunos;
  • Para pensar em uma atividade diferente; ou
  • Simplesmente para descansar.

Porque cuidar da qualidade do ensino também passa por cuidar de quem ensina.

O humano cria. A máquina executa.

Não acredito em uma educação na qual a Inteligência Artificial substitua o professor. Também não acredito em uma educação que simplesmente finja que a Inteligência Artificial não existe.

Acredito em uma terceira possibilidade:

  • O professor define os objetivos;
  • O professor conhece seus alunos;
  • O professor compreende o contexto;
  • O professor escolhe a metodologia;
  • O professor avalia o que faz sentido;
  • O professor valida o resultado.

A IA trabalha dentro desses limites.

Isso exige uma competência que provavelmente será cada vez mais importante: saber o que delegar para a máquina e o que jamais deveria ser delegado.

Criatividade, julgamento, responsabilidade, empatia, experiência e compreensão do contexto continuam sendo essencialmente humanos. A execução de determinadas tarefas pode ser compartilhada com a tecnologia.

Talvez, portanto, a pergunta não seja se professores deveriam usar Inteligência Artificial. A pergunta deveria ser:

Como podemos utilizá-la para sermos professores melhores sem deixar que ela pense por nós?

A educação já atravessou muitas revoluções tecnológicas. Esta é apenas mais uma. E, na minha visão, não precisamos lutar contra ela. Precisamos aprender a utilizá-la a nosso favor.

No fim, a ideia é bastante simples:

O humano fica com a criatividade, a IA ajuda na execução.

E o tempo que recuperamos pode ser dedicado ao que realmente importa: ensinar melhor e continuar humanos enquanto fazemos isso.